17 de jun. de 2014

o misterioso caso dos Executivos Engravatados Que Só Aparecem Na Hora Do Almoço

Desde os primórdios da psicopatia corporativa, muitos dizem terem avistado estas criaturas que ficaram recentemente conhecidas como os Executivos Engravatados Que Só Aparecem Na Hora Do Almoço. Os encontros se dão, normalmente, na faixa das 11h às 13h nos bairros ricos em movimentação comercial de qualquer metrópole. As criaturas sempre aparentam estar indo de algum lugar para outro, em passadas exuberantes dadas por pés quase sempre cobertos de couro polido e que parecem não tocar o chão. Flutuam pelas calçadas destes centros como miragens elongadas e arrogantes, com rostos desprovidos de poros visíveis e de qualquer expressão coerente, e corpos delgados envoltos em mantas sofisticadas que só deixam visíveis os pulsos e as mãos, o pescoço e a cabeça. Nas mãos, podem levar pastas cáqui e papéis com logos obscuros ou não; nos pulsos, quase sempre se verá uma versão menor e completamente funcional dum relógio de parede, se relógios de parede fossem cunhados em prata, encastoados de trocentas variedades de ponteiro que ninguém sabe pra que servem e vendidos quase exclusivamente pra pessoas que você suspeita que irá chamar de "babaca" em algum momento futuro.

São criaturas aterrorizantes, maldosas e assassinas... da auto-estima. Deparar-se com um Executivo Engravatado Que Só Aparece Na Hora Do Almoço pode ser uma experiência traumática para quem não está devidamente preparado. O vapor mefítico da excelência em funcionar como ser humano exalado por todos os poros destes seres penetra nas narinas de meros mortais como facadas no sovaco, e seus efeitos psicotrópicos rapidamente se alastram por todo o sistema nervoso. Muitos relatam espasmos dolorosos em músculos na testa, sobrancelhas e cantos da boca enquanto a face se contrai involuntariamente em expressão de inveja, raiva, tristeza etc., tremedeiras fóbicas nas pernas e nas mãos, entre outros sintomas psicossomáticos ridículos. Em casos mais graves, a mera visão do plácido ser é capaz de derrubar completamente a auto-estima da vítima, fustigando o fantasma da auto-crítica destrutiva e abalando a psique por semanas e meses arrasadores. O golpe mais certeiro, contudo, ocorre ao entrar-se eventualmente no campo de visão de um Homem Engravatado Que Só Aparece Na Hora Do Almoço: ser captado pelo olhar da criatura por uma fração de segundo sequer expõe a vítima aos seus próprios fantasmas e deficiências mais obscuras de tal forma que não apenas a tentativa de assassinar sua auto-estima se concretiza em 99% das vezes, como também o orgulho pode se desvanecer por completo. Poucos conseguem sobreviver a este ataque: dos que conseguem, a maioria vive no estado vegetativo de remoenda das próprias inépcias ou em coma induzido por mediocridade.

Sendo tamanho o poder destas criaturas, é compreensível que haja tanta curiosidade acerca de sua natureza e características reais, mas há muito mais perguntas que respostas. Não se sabem ao certo seus hábitos, pois ninguém realmente conhece um Executivo Engravatado Que Só Aparece Na Hora Do Almoço e ninguém ainda teve a chance de observá-los fora do horário de almoço; quase todo o conhecimento a respeito deles é constituído de especulações. Autores teorizam que estes seres possuem um controle mais ou menos pleno sobre todos os aspectos de sua vida, tomam café da manhã todos os dias, comem pratos saudáveis, praticam exercícios regularmente e não possuem uma espinha sequer na bunda, entre diversas outras façanhas mitológicas. Conjectura-se inclusive que já foram humanos como nós um dia, alterados no interior da sua estrutura molecular intracelular por algum cataclisma do destino: de tempos em tempos aparece um sujeito ou dois dizendo que este ou aquele Executivo Engravatado Que Só Aparece Na Hora Do Almoço costumava ser seu parente, amigo ou conhecido. De forma geral, o Executivo Engravatado Que Só Aparece Na Hora Do Almoço é mesmo visto como uma entidade sobrenatural cuja única funcionalidade é sugar a energia vital dos transeuntes, mas há quem diga também que são só seres humanos normais que conseguiram atingir, de certa forma, o equilíbrio em suas vidas. Esta hipótese é, claramente, a mais desacreditada: todos sabem que isto é tão impossível quanto uma bola quadrada ou um apresentador de programa de domingo que não seja irritante.

Sendo os Executivos Engravatados Que Só Aparecem Na Hora Do Almoço humanos ou não, vale frisar que moradores de grandes cidades devem sempre estar atentos aos ataques destas criaturas horríveis. Recomenda-se evitar o centro da cidade no horário do almoço, e, caso não seja possível, evitar ao máximo observar os pedestres nas ruas. Outras medidas são extremamente frutíferas, com igualmente extrema dificuldade de execução para combinar. Entre estas incluem-se: baixar a bola, deixar de ser otário e trancar a auto-confiança em algum lugar seguro, de preferência em cofres Para Si Mesmo ® .

6 de jun. de 2013

O legado de Maria

Maria saiu em uma manhã de inverno da casa de pijama e chinelos, andando a passos lentos e pouco espaçados entre si, como se estivesse em muito adiantada para seu destino. Mas não havia destino, pelo menos não preciso ou conhecido, nem hora certa pra chegar lá. Na verdade, ninguém havia jamais voltado do lugar para o qual planejava ir - alguns diziam já ter ido e voltado, mas a prova empírica que sustentava tal informação tinha o ônus de só ser conhecida por eles mesmos, e também de poder ser facilmente desmentida por outras teorias sobre processos psíquicos ainda um pouco obscuros à ciência e altamente predispostos a integrarem crendices.

Havia feito este mesmo percurso umas cinquenta vezes, com o mesmo destino pretendido, os mesmos pensamentos, o mesmo passear inebriado e as mesmas delusões oníricas - cavalos alados, serpentes velozes multicoloridas, ondas de vinte metros de altura - a lhe passarem pela mente, projetadas como um filme sobre o interior escuro das pálpebras fechadas. A única diferença era que, desta vez, não trazia dinheiro, nem chaves, nem identificação, nem bilhetes de transporte, nem celular, nem nenhum estorvo que a pudesse fazer desistir de sua sina. O destino da viagem estava definitivamente sob seu próprio julgamento.

Pensava enquanto ia caminhando qual era o destino mais propício para chegar a este seu destino. Escolheu o mais próximo do céu nas imediações: subiu as escadas dos 20 andares do edifício comercial muito lentamente, quase parando, parou para arfar depois da metade, continuou. Levou uma vida para chegar ao terraço, onde a aceleração da gravidade pudesse levar-lhe a vida. Encostada na grade do cume da montanha de aço e cimento, olhou para baixo, para o chão que parecia cada vez mais próximo e a atraía com força astronômica.

Trepou sobre a grade, e resolveu não pensar sob pena de desistir novamente. Apenas soltou os braços e, agora, seu único obstáculo era a resistência do ar. Flutuou como um anjo, leve como uma pluma, acima de todas as dezenas de cabeças que presenciavam o espetáculo com os olhos esbugalhados pelo terror na calçada logo abaixo. Parecia pronta para de repente mudar sua trajetória com uma variação de ângulo acentuada, e alçar um longo voo para algum lugar paradisíaco e muito distante, quando seu corpo estatelou-se no chão e explodiu como um balão inchado de carne.

As crianças choraram enquanto seus pais tapavam seus olhos. A comoção durou o tempo necessário para a chegada dos bombeiros, e algumas horas mais. A da família, alguns anos.

Os restos foram enterrados.
Sua massa se decompôs em átomos que retornaram ao pó.

O pó foi ao longo dos anos se desfazendo, também.

Não teve a mesma sorte - sorte? - de Jesus ou Frida Kahlo, de ter sua marca perpetuada por numerosos registros escritos e pictóricos até muito depois da posteridade. As fotos em papel se perderam dos álbuns de família ao longo dos anos, indo parar em um incinerador por acidente antes de virtualizadas, assim como todos os registros de sua existência, da certidão de nascimento à de óbito, logo depois, e propositalmente.

Só centenas de anos após a extinção de toda a humanidade, um punhado de átomos de carbono que outrora compuseram a massa de um dito organismo senciente que recebera a alcunha de Maria e morrera no chão de uma via que na época se chamava rua, por um raríssimo acaso vieram a se reagrupar no mesmo lugar do tempo e do espaço. Tiveram a sorte de fazer parte de um mesmo conjunto orgânico que o organismo havia um dia chamado de semente.

Dela, nasceu uma flor, como milhares de outras no mesmo campo.

Apenas mais uma.

16 de abr. de 2013

O Messias, pt. I

O populado que chamavam de Pangeia Ocidental era um lugar estranho para se viver. Primeiramente, não era exatamente um lugar pequeno como a alcunha “populado” dava a entender. Era só... estranho. Como se tivessem pegado uma estereotípica metrópole, irremediavelmente infectada por arranha-céus, multidões, ressentimento, carros e toda essas manifestações psicossomáticas de uma urbanização violenta, copiado em algum software de edição de imagens, e repetidamente colado e ajeitado as colagens lado a lado neste mesmo software,  até que se cobrisse todo o continente americano e o editor morresse de inanição por ter ficado tanto tempo na frente do computador.

Não adiantava o esforço repetitivo das autoridades em dividir esta metrópole continental  - que seria um bom nome para o fenômeno deste lugar, se o período de atenção de 80% dos 1 bilhão e meio de habitantes fosse maior que 1 segundo e meio, menos do que o necessário para terminar de pronunciar o termo antes de morrer de tédio. A homogeneidade sócio-cultural do lugar permanecia mais ou menos a mesma em qualquer cidade, dispostas em padrão irregular através da superfície de mais ou menos 170 milhões de quilômetros quadrados, que continha poucos acidentes geográficos -  em torno dos quais, porém, ainda tentavam-se criar mais divisões geopolíticas parecidas com países. O caráter de tais divisões era puramente administrativo, e a administração toda era ilusória; no fundo, até as grandes massas tinham aquele sentimento de que as ordens vinham sempre de uma única entidade obscura que ninguém sabia realmente quem era.

Por falta de um termo melhor para classificar tal fenômeno de urbanização, chamou-se populado. Até porque era bem... "populado" mesmo. Todo mundo entendia assim, os geógrafos e urbanistas em geral não precisavam ficar prolongando seus imbróglios e tinham mais tempo para gastar na frente de um videogame ou similar, como vegetais vertebrados.

Em segundo lugar, as pessoas que viviam lá eram muito mais estranhas do que a própria palavra “estranha” normalmente permite que as pessoas sejam. Para um ser humano comum, que tivesse QI superior a 60 e no mínimo um pingo de raciocínio lógico, o lugar era o mais insuportável dos lugares insuportáveis. Uma merda mesmo. Os que nasciam assim em Pangeia Ocidental acabavam perdendo a razão ou tirando a própria vida antes dos 20 anos de idade, frequentemente confiscando a vida de muitos outros também, antes disso.

O lugar só conseguia se manter porque, na curva relacionando o critério inteligência/raciocínio lógico com a suportabilidade da sobrevivência em Pangeia Ocidental, chegava a um ponto em que o primeiro era tão alto que o indivíduo se apercebia da possibilidade de usá-lo para odiar o resto da raça humana de maneira menos passivo-agressiva e mais ativa. Normalmente, eles escolhiam fazer isso abrindo bancos, ONGs e instituições de apoio à paz e aos Direitos Humanos . Estes eram os 1% da população que não eram odiosamente estranhas e cujos interesses mesquinhos eram plenamente compreensíveis.

O resto era impossível de se olhar sem que o cérebro de um ser humano comum se retorcesse e gemesse em agonia, vindo a óbito imediatamente depois. Cada cidadão da Pangeia Ocidental era uma massa de tons, sombras e luzes irreconhecíveis que se apresentavam nos padrões e formatos mais bizarros que Pollock jamais teria a capacidade de imaginar. Os adereços que utilizavam ultrapassavam em cores talvez até o espectro eletromagnético visível. Ser bizarro era tão normal que as pessoas se vestiam de seres humanos no Halloween. Ser normal então era bizarríssimo.

Cada ser humano em Pangeia Ocidental se considerava único, e sua originalidade tendia a se mesclar às dos outros, uniformizando-se em uma grande massa de um nada absolutamente rico e complexo, uma dança de produtos e demais formas de capital físico sobre a elongada superfície de uma überlópole intrincada. Tal originalidade também variava de época pra época, de moda pra moda. Cada indivíduo propagandeava sobre si as virtudes que tinha o desejo de ter – de preferência, a virtude mais “in“ do momento.

Para expressar sua identidade pessoal por marcas - em Pangeia Ocidental é muito mais importante consumir conteúdo que produzi-lo – os cidadãos aglomeravam-se em longas filas e multidões que mais pareciam aglomerações de zumbis esperando a loja de produtos naturebas abrir para comprar carne de soja, porque foram sugeridos durante hipnose que deveriam ser vegetarianos. O inventor só se destacava em relação ao marqueteiro/contrabandista de patentes se fosse muito mais bonito e sensual, porque a avareza do último pode ainda ser considerada pecado capital em favor da boa conduta cristã que fundou este hemisfério, mas em termos de capital, é virtude.

Falando em pecado... fica claro já era chegada a hora do retorno de um Messias. Seria bacana alguém dando algumas lições de virtude e moral nestes tempos que começavam a ficar dificílimos após muitas crises e flutuações no mercado. Em nome da originalidade e da liberdade de expressão, é claro.

O Messias acabou vindo. Era caucasiano, tinha longas madeixas cor de ouro e um barbão. Desceu dos céus vestindo uma camisa da URSS e uma boina de Che Guevara que já tinha saído de moda fazia uns 5 minutos, mas ainda ficava bem nele, então estava perdoado pelo senso comum. Fora que barbão estava super em voga.

Na placa que trazia nas mãos, estava escrito "você não é pessoa, você é consumidor" em fonte Verdana, rosa-choque.

Foi o Me$$ia$ que a rapeize pediu a Deus.